Desde que abri as portas da Livraria Chico Xavier venho recebendo visitas dos mais diversos interesses.
Não vou descrever todos neste artigo, pois são de variadas ordens. Mas quero falar de dois em particular que são os personagens para o caso em especial que vou descrever mais tarde.
Falo do dependentes químicos e de seus familiares.
De um lado os dependentes que entram pedindo dinheiro. A maioria diz que precisa completar o dinheiro do remédio ou da passagem para voltar ao lar. Não querem saber de escutar uma palavra amiga, nem mesmo um abraço. Não querem saber se existem livros de autoajuda para seu caso. Querem dinheiro, ou melhor, querem as drogas. Alguns chegam a um estagio de entrar dizendo: "_ Eu poderia roubar, matar...mas estou pedindo".
Como eu nunca tive papas na língua (e em certos casos isto até que conta um ponto positivo para mim), retruco: "-Pode sim, mas não deve. Caso contrário poderá ser preso ou levar um tiro - e completo ainda - Falando nisto eu não sou muito boa de pontaria. Geralmente aponto para o pé e acerto a cabeça. Alguns até riem de mim e dizem "A senhora é engraçada. Valeu! Me ganhou esta!
Os segundos "envolvidos" são os familiares. Eles chegam de mansinho dizendo que precisam de um presente para o coleguinha da escola de seu filho, do sobrinho, de trabalho de seu esposo etc... Mas aos poucos vão "entregando o jogo", mesmo que eu não busque isto, e acabam dizendo que não é nem mesmo um presente, mas que precisam ler algo para poder ajudar ou conviver com o drogado da família.
O psiquiatra e escritor espírita Sérgio Lopes fala que no convívio de um dependente químico existem os co-dependentes. E estes tem, geralmente, a sua parcela de contribuição para que o caso agrave ou se amenise. Pois bem. Eu aproveito muito esta colocação do Dr. Sérgio Lopes e surte, geralmente, um belo efeito de conscientização.
Mas hoje aconteceu algo diferente. Ele entrou na loja, com um olhar esperançoso. De aparência saudável disse ter 42 anos, mas aparentava somente 30. Sem que eu observasse ser ele o próprio dependente químico, me pede um livro que o ajudesse a entender porque existe o mundo das drogas. Eu costumo deixar que o cliente fale sobre o seu afeto dependente químico. Mas este senhor me contou sua história com muita vontade. Desde os 14 anos se drogava com maconha e cocaína. Segundo ele estudou e trabalhou sem que as drogas afetassem seu desenvolvimento intelectual e emocional. Mas teve curiosidade de experimentar há 3 anos atrás uma droga que o derrubou: o crack. Ele se diz já ter frequentado uma Casa Espírita e que pretende voltar a estudar a Doutrina. Mostrei os livros que eu tenho aqui na livraria sobre o tema e ele se interessou por "Drogas: causas, consequências e recuperação."
Ofereceram um emprego para ele trabalhar em um depósito no mercado varegista e está com medo de aceitar. Não por se sentir sem condições de exercer o trabalho, mas tem medo quando lhe entregarem o salário semanal. "Tenho muito medo de não resistir e comprar a pedra", me confidenciou. Mas encorajei-o bastante a aceitar e ao sair da livraria sua última frase foi esta: "Os inimigos capricharam desta vez. O crack é devastador. Vou ter que mostrar que sou mais forte que ele".



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